Recuperação judicial da Casas Bahia coloca Grupo Multi (MLAS3) entre os credores da varejista, mas companhia afirma que parcela não coberta por seguro e outras garantias representa apenas 2,29% do saldo líquido de contas a receber
A crise financeira do Grupo Casas Bahia chegou ao Grupo Multi (MLAS3), mas os números divulgados pela companhia mostram uma situação mais complexa do que a primeira manchete pode sugerir.
A Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial para reestruturar aproximadamente R$ 17,3 bilhões em dívidas, depois de registrar um prejuízo líquido de cerca de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026. O processo envolve diversas empresas do grupo e ocorre cerca de dois anos depois da reestruturação extrajudicial realizada pela varejista.
Segundo a reportagem da Exame, entre os credores aparecem grandes bancos e fornecedores de eletrônicos. A relação apresentada no processo inclui o Grupo Multi com aproximadamente R$ 206,7 milhões em créditos. Samsung, Electrolux, LG Electronics, Motorola, Britânia e TCL/Semp também aparecem entre os grandes fornecedores expostos à varejista.
Mas existe uma diferença fundamental entre ter R$ 206,7 milhões a receber e perder R$ 206,7 milhões.
E é justamente essa diferença que está no centro da discussão envolvendo MLAS3.
Multi anuncia provisão de aproximadamente R$ 20 milhões
Na noite de 18 de agosto, o Grupo Multi informou ao mercado que registrará uma provisão de aproximadamente R$ 20 milhões em razão do pedido de recuperação judicial da Casas Bahia.
Esse valor se soma aos aproximadamente R$ 11 milhões que já haviam sido provisionados anteriormente, levando o total para cerca de R$ 31 milhões.
Segundo a companhia, esse montante corresponde exclusivamente à parcela do saldo a receber que não está coberta pelas apólices de seguro de crédito e pelos demais instrumentos de garantia contratados pela empresa.
A Multi também afirmou que o valor é pouco expressivo diante de sua carteira total de recebíveis, representando aproximadamente 2,29% do saldo líquido de contas a receber.
A companhia declarou ainda que não espera desdobramentos capazes de alterar de forma significativa os resultados do exercício de 2026 ou sua posição patrimonial e financeira.
R$ 206,7 milhões de exposição não significam R$ 206,7 milhões de prejuízo
É aqui que a análise fica mais interessante para o acionista de MLAS3.
A relação de credores aponta aproximadamente R$ 206,7 milhões relacionados ao Grupo Multi.
Ao mesmo tempo, a companhia reconheceu aproximadamente R$ 31 milhões em provisões, considerando os R$ 20 milhões anunciados agora e os R$ 11 milhões anteriormente provisionados.
Em uma conta simples, existe uma diferença de aproximadamente R$ 175,7 milhões entre a exposição listada e o valor provisionado.
Mas é importante fazer uma ressalva: isso não significa que os R$ 175,7 milhões estejam automaticamente garantidos ou que serão recebidos integralmente.
O que a Multi informou é que a parcela provisionada não está coberta pelas apólices de seguro de crédito e outros instrumentos de garantia.
A recuperação do restante dependerá das condições das apólices, limites de cobertura, franquias, documentação, regulação dos sinistros e demais garantias existentes.
Portanto, o número que realmente importa para o acionista ainda não é simplesmente o valor listado na recuperação judicial.
É a perda líquida efetiva que a Multi terá depois da execução das garantias.
Seguro de crédito pode fazer diferença
A utilização de seguro de crédito não é exclusividade da Multi.
Outra fornecedora da Casas Bahia, a Positivo Tecnologia, informou que possuía aproximadamente R$ 19 milhões em valores a receber da varejista, mas afirmou que a totalidade dessa exposição estava coberta por seguro de crédito contratado junto a duas seguradoras.
O episódio mostra por que simplesmente olhar para a lista de credores pode produzir uma interpretação equivocada.
Duas empresas podem ter créditos semelhantes contra o mesmo cliente, mas apresentar impactos financeiros completamente diferentes dependendo de sua política de crédito, seguros e garantias.
Por isso, estar entre os credores da Casas Bahia não significa automaticamente transformar todo o valor listado em prejuízo.
Casas Bahia tem uma das maiores listas de credores do varejo brasileiro
A recuperação judicial da Casas Bahia envolve uma dívida declarada de aproximadamente R$ 17,3 bilhões.
A lista inclui instituições financeiras, fundos, fornecedores, empresas de tecnologia e credores tributários.
Entre os fornecedores de eletrônicos, a Samsung aparece com aproximadamente R$ 937,6 milhões, seguida por Electrolux, com cerca de R$ 700,1 milhões, LG Electronics, com aproximadamente R$ 623,7 milhões, Motorola, com cerca de R$ 619 milhões, Britânia, com R$ 354,8 milhões, e TCL/Semp, com aproximadamente R$ 330,9 milhões.
Isso ajuda a dimensionar o problema.
A exposição da Multi é relevante, mas não está isolada dentro da cadeia de fornecedores da varejista.
E o balanço da Multi?
Outro ponto importante para avaliar o impacto sobre MLAS3 é a capacidade financeira da própria companhia.
De acordo com os números utilizados na análise do segundo trimestre de 2026, a Multi apresentava aproximadamente R$ 777 milhões em caixa e cerca de R$ 371 milhões em dívida bruta, resultando em aproximadamente R$ 406 milhões de caixa líquido.
Isso significa que uma provisão de aproximadamente R$ 31 milhões precisa ser analisada dentro do tamanho total do balanço e não isoladamente.
A existência da provisão é negativa e representa um risco de crédito real. Porém, pelos números apresentados, o episódio não parece representar, por si só, uma ameaça imediata à estrutura financeira da companhia.
Provisão não é necessariamente saída imediata de caixa
Outro ponto que pode confundir investidores é a diferença entre resultado contábil e fluxo de caixa.
O reconhecimento de uma provisão afeta o resultado contábil, mas não significa necessariamente que o mesmo valor tenha saído imediatamente do caixa da companhia.
O impacto econômico definitivo dependerá da evolução da recuperação judicial e, principalmente, da capacidade da Multi de executar as garantias e receber os valores cobertos.
Por isso, os próximos comunicados da empresa podem ser mais importantes do que a própria provisão anunciada agora.
O que o investidor de MLAS3 deve acompanhar?
Existem pelo menos cinco números que merecem atenção daqui para frente:
1. Quanto a Multi possui em créditos contra a Casas Bahia.
2. Quanto desse valor está efetivamente coberto por seguro e outras garantias.
3. Quanto a companhia precisará manter provisionado.
4. Quanto as seguradoras e demais garantidores efetivamente pagarão.
5. Quando esses recursos entrarão no caixa da Multi.
O quinto ponto é especialmente importante.
Não basta existir uma cobertura contratual. O investidor precisa acompanhar o processo de execução, reconhecimento e recebimento dos valores.
O mercado pode estar olhando para o número errado?
Essa é talvez a principal questão para MLAS3.
A empresa reconheceu aproximadamente R$ 20 milhões em nova provisão, além dos R$ 11 milhões anteriormente provisionados, e afirmou que essa parcela corresponde ao saldo não coberto por seguro de crédito e outras garantias.
Isso não elimina o risco.
Mas muda completamente a pergunta.
A questão deixou de ser simplesmente:
“A Multi vai perder R$ 206,7 milhões?”
E passou a ser:
“Quanto da exposição de R$ 206,7 milhões a Multi conseguirá recuperar?”
Essa é a conta que o mercado ainda precisa descobrir.
O risco existe, mas pode ser administrável
É importante também evitar o extremo oposto.
A recuperação judicial da Casas Bahia é, sim, um evento negativo para a Multi.
Existe exposição.
Existe uma parcela sem cobertura que foi provisionada.
E ainda existe incerteza sobre a recuperação efetiva dos valores.
Além disso, a seguradora precisará analisar os sinistros e as condições contratuais antes que qualquer valor possa ser considerado definitivamente recuperado.
Portanto, não seria correto afirmar que a Multi “não perdeu nada”.
Da mesma forma, também seria precipitado afirmar que a companhia perdeu R$ 206,7 milhões.
O cenário atual está entre esses dois extremos.
O que pode mudar a percepção sobre MLAS3?
O próximo capítulo dessa história será a recuperação dos recebíveis.
Caso a Multi consiga recuperar uma parcela relevante do crédito protegido, o impacto econômico final poderá ser significativamente menor do que o valor total listado entre os credores da Casas Bahia.
Nesse cenário, o mercado poderá perceber que a exposição bruta não era equivalente à perda econômica final.
Por outro lado, caso ocorram problemas na execução das apólices, limites de cobertura ou outras garantias, o impacto poderá ser maior do que o valor inicialmente provisionado.
É justamente por isso que o caso ainda precisa ser acompanhado.
Conclusão: R$ 206,7 milhões de exposição ou R$ 31 milhões de risco?
O caso Casas Bahia coloca a Multi diante de um problema real, mas os números disponíveis até agora não permitem concluir que a companhia terá um prejuízo de R$ 206,7 milhões.
A relação de credores aponta aproximadamente R$ 206,7 milhões em créditos da Multi contra a Casas Bahia.
A companhia, por sua vez, informou uma nova provisão de aproximadamente R$ 20 milhões, que se soma aos R$ 11 milhões anteriormente provisionados, totalizando aproximadamente R$ 31 milhões.
Segundo a Multi, esse montante corresponde à parcela não coberta pelas apólices de seguro de crédito e demais instrumentos de garantia.
Portanto, o número mais importante daqui para frente não é simplesmente os R$ 206,7 milhões.
Também não é apenas os R$ 20 milhões de nova provisão.
O verdadeiro número que o acionista precisa acompanhar é:
Quanto dinheiro a Multi conseguirá efetivamente recuperar.
Se a recuperação for elevada, o impacto final poderá ficar muito abaixo da exposição bruta.
Se houver problemas nas garantias, o cenário poderá ser diferente.
Por enquanto, o que os números mostram é uma exposição relevante, parcialmente protegida, com uma parcela já provisionada e uma companhia que afirma não esperar impacto significativo sobre seus resultados de 2026.
Para o investidor de MLAS3, portanto, a recuperação judicial da Casas Bahia não deve ser ignorada — mas também não deve ser interpretada simplesmente como uma perda de R$ 206,7 milhões.
A próxima etapa será descobrir quanto dessa dívida realmente vai virar dinheiro no caixa da Multi.


