MLAS3: Casas Bahia deve R$ 206,7 milhões ao Grupo Multi, mas provisão é de apenas R$ 20 milhões

Por
JOAO PAULO RIBEIRO CLARA
"Fundador e Diretor Editorial do portal Plotos.com e do respectivo canal de análises. Profissional certificado CEA® (Certificação ANBIMA de Especialistas em Investimento) , possui pós-graduação em...
12 min de leitura

Recuperação judicial da Casas Bahia coloca Grupo Multi (MLAS3) entre os credores da varejista, mas companhia afirma que parcela não coberta por seguro e outras garantias representa apenas 2,29% do saldo líquido de contas a receber

A crise financeira do Grupo Casas Bahia chegou ao Grupo Multi (MLAS3), mas os números divulgados pela companhia mostram uma situação mais complexa do que a primeira manchete pode sugerir.

A Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial para reestruturar aproximadamente R$ 17,3 bilhões em dívidas, depois de registrar um prejuízo líquido de cerca de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026. O processo envolve diversas empresas do grupo e ocorre cerca de dois anos depois da reestruturação extrajudicial realizada pela varejista.

Segundo a reportagem da Exame, entre os credores aparecem grandes bancos e fornecedores de eletrônicos. A relação apresentada no processo inclui o Grupo Multi com aproximadamente R$ 206,7 milhões em créditos. Samsung, Electrolux, LG Electronics, Motorola, Britânia e TCL/Semp também aparecem entre os grandes fornecedores expostos à varejista.

Mas existe uma diferença fundamental entre ter R$ 206,7 milhões a receber e perder R$ 206,7 milhões.

E é justamente essa diferença que está no centro da discussão envolvendo MLAS3.

Multi anuncia provisão de aproximadamente R$ 20 milhões

Na noite de 18 de agosto, o Grupo Multi informou ao mercado que registrará uma provisão de aproximadamente R$ 20 milhões em razão do pedido de recuperação judicial da Casas Bahia.

Esse valor se soma aos aproximadamente R$ 11 milhões que já haviam sido provisionados anteriormente, levando o total para cerca de R$ 31 milhões.

Segundo a companhia, esse montante corresponde exclusivamente à parcela do saldo a receber que não está coberta pelas apólices de seguro de crédito e pelos demais instrumentos de garantia contratados pela empresa.

A Multi também afirmou que o valor é pouco expressivo diante de sua carteira total de recebíveis, representando aproximadamente 2,29% do saldo líquido de contas a receber.

A companhia declarou ainda que não espera desdobramentos capazes de alterar de forma significativa os resultados do exercício de 2026 ou sua posição patrimonial e financeira.

R$ 206,7 milhões de exposição não significam R$ 206,7 milhões de prejuízo

É aqui que a análise fica mais interessante para o acionista de MLAS3.

A relação de credores aponta aproximadamente R$ 206,7 milhões relacionados ao Grupo Multi.

Ao mesmo tempo, a companhia reconheceu aproximadamente R$ 31 milhões em provisões, considerando os R$ 20 milhões anunciados agora e os R$ 11 milhões anteriormente provisionados.

Em uma conta simples, existe uma diferença de aproximadamente R$ 175,7 milhões entre a exposição listada e o valor provisionado.

Mas é importante fazer uma ressalva: isso não significa que os R$ 175,7 milhões estejam automaticamente garantidos ou que serão recebidos integralmente.

O que a Multi informou é que a parcela provisionada não está coberta pelas apólices de seguro de crédito e outros instrumentos de garantia.

A recuperação do restante dependerá das condições das apólices, limites de cobertura, franquias, documentação, regulação dos sinistros e demais garantias existentes.

Portanto, o número que realmente importa para o acionista ainda não é simplesmente o valor listado na recuperação judicial.

É a perda líquida efetiva que a Multi terá depois da execução das garantias.

Seguro de crédito pode fazer diferença

A utilização de seguro de crédito não é exclusividade da Multi.

Outra fornecedora da Casas Bahia, a Positivo Tecnologia, informou que possuía aproximadamente R$ 19 milhões em valores a receber da varejista, mas afirmou que a totalidade dessa exposição estava coberta por seguro de crédito contratado junto a duas seguradoras.

O episódio mostra por que simplesmente olhar para a lista de credores pode produzir uma interpretação equivocada.

Duas empresas podem ter créditos semelhantes contra o mesmo cliente, mas apresentar impactos financeiros completamente diferentes dependendo de sua política de crédito, seguros e garantias.

Por isso, estar entre os credores da Casas Bahia não significa automaticamente transformar todo o valor listado em prejuízo.

Casas Bahia tem uma das maiores listas de credores do varejo brasileiro

A recuperação judicial da Casas Bahia envolve uma dívida declarada de aproximadamente R$ 17,3 bilhões.

A lista inclui instituições financeiras, fundos, fornecedores, empresas de tecnologia e credores tributários.

Entre os fornecedores de eletrônicos, a Samsung aparece com aproximadamente R$ 937,6 milhões, seguida por Electrolux, com cerca de R$ 700,1 milhões, LG Electronics, com aproximadamente R$ 623,7 milhões, Motorola, com cerca de R$ 619 milhões, Britânia, com R$ 354,8 milhões, e TCL/Semp, com aproximadamente R$ 330,9 milhões.

Isso ajuda a dimensionar o problema.

A exposição da Multi é relevante, mas não está isolada dentro da cadeia de fornecedores da varejista.

E o balanço da Multi?

Outro ponto importante para avaliar o impacto sobre MLAS3 é a capacidade financeira da própria companhia.

De acordo com os números utilizados na análise do segundo trimestre de 2026, a Multi apresentava aproximadamente R$ 777 milhões em caixa e cerca de R$ 371 milhões em dívida bruta, resultando em aproximadamente R$ 406 milhões de caixa líquido.

Isso significa que uma provisão de aproximadamente R$ 31 milhões precisa ser analisada dentro do tamanho total do balanço e não isoladamente.

A existência da provisão é negativa e representa um risco de crédito real. Porém, pelos números apresentados, o episódio não parece representar, por si só, uma ameaça imediata à estrutura financeira da companhia.

Provisão não é necessariamente saída imediata de caixa

Outro ponto que pode confundir investidores é a diferença entre resultado contábil e fluxo de caixa.

O reconhecimento de uma provisão afeta o resultado contábil, mas não significa necessariamente que o mesmo valor tenha saído imediatamente do caixa da companhia.

O impacto econômico definitivo dependerá da evolução da recuperação judicial e, principalmente, da capacidade da Multi de executar as garantias e receber os valores cobertos.

Por isso, os próximos comunicados da empresa podem ser mais importantes do que a própria provisão anunciada agora.

O que o investidor de MLAS3 deve acompanhar?

Existem pelo menos cinco números que merecem atenção daqui para frente:

1. Quanto a Multi possui em créditos contra a Casas Bahia.

2. Quanto desse valor está efetivamente coberto por seguro e outras garantias.

3. Quanto a companhia precisará manter provisionado.

4. Quanto as seguradoras e demais garantidores efetivamente pagarão.

5. Quando esses recursos entrarão no caixa da Multi.

O quinto ponto é especialmente importante.

Não basta existir uma cobertura contratual. O investidor precisa acompanhar o processo de execução, reconhecimento e recebimento dos valores.

O mercado pode estar olhando para o número errado?

Essa é talvez a principal questão para MLAS3.

A empresa reconheceu aproximadamente R$ 20 milhões em nova provisão, além dos R$ 11 milhões anteriormente provisionados, e afirmou que essa parcela corresponde ao saldo não coberto por seguro de crédito e outras garantias.

Isso não elimina o risco.

Mas muda completamente a pergunta.

A questão deixou de ser simplesmente:

“A Multi vai perder R$ 206,7 milhões?”

E passou a ser:

“Quanto da exposição de R$ 206,7 milhões a Multi conseguirá recuperar?”

Essa é a conta que o mercado ainda precisa descobrir.

O risco existe, mas pode ser administrável

É importante também evitar o extremo oposto.

A recuperação judicial da Casas Bahia é, sim, um evento negativo para a Multi.

Existe exposição.

Existe uma parcela sem cobertura que foi provisionada.

E ainda existe incerteza sobre a recuperação efetiva dos valores.

Além disso, a seguradora precisará analisar os sinistros e as condições contratuais antes que qualquer valor possa ser considerado definitivamente recuperado.

Portanto, não seria correto afirmar que a Multi “não perdeu nada”.

Da mesma forma, também seria precipitado afirmar que a companhia perdeu R$ 206,7 milhões.

O cenário atual está entre esses dois extremos.

O que pode mudar a percepção sobre MLAS3?

O próximo capítulo dessa história será a recuperação dos recebíveis.

Caso a Multi consiga recuperar uma parcela relevante do crédito protegido, o impacto econômico final poderá ser significativamente menor do que o valor total listado entre os credores da Casas Bahia.

Nesse cenário, o mercado poderá perceber que a exposição bruta não era equivalente à perda econômica final.

Por outro lado, caso ocorram problemas na execução das apólices, limites de cobertura ou outras garantias, o impacto poderá ser maior do que o valor inicialmente provisionado.

É justamente por isso que o caso ainda precisa ser acompanhado.

Conclusão: R$ 206,7 milhões de exposição ou R$ 31 milhões de risco?

O caso Casas Bahia coloca a Multi diante de um problema real, mas os números disponíveis até agora não permitem concluir que a companhia terá um prejuízo de R$ 206,7 milhões.

A relação de credores aponta aproximadamente R$ 206,7 milhões em créditos da Multi contra a Casas Bahia.

A companhia, por sua vez, informou uma nova provisão de aproximadamente R$ 20 milhões, que se soma aos R$ 11 milhões anteriormente provisionados, totalizando aproximadamente R$ 31 milhões.

Segundo a Multi, esse montante corresponde à parcela não coberta pelas apólices de seguro de crédito e demais instrumentos de garantia.

Portanto, o número mais importante daqui para frente não é simplesmente os R$ 206,7 milhões.

Também não é apenas os R$ 20 milhões de nova provisão.

O verdadeiro número que o acionista precisa acompanhar é:

Quanto dinheiro a Multi conseguirá efetivamente recuperar.

Se a recuperação for elevada, o impacto final poderá ficar muito abaixo da exposição bruta.

Se houver problemas nas garantias, o cenário poderá ser diferente.

Por enquanto, o que os números mostram é uma exposição relevante, parcialmente protegida, com uma parcela já provisionada e uma companhia que afirma não esperar impacto significativo sobre seus resultados de 2026.

Para o investidor de MLAS3, portanto, a recuperação judicial da Casas Bahia não deve ser ignorada — mas também não deve ser interpretada simplesmente como uma perda de R$ 206,7 milhões.

A próxima etapa será descobrir quanto dessa dívida realmente vai virar dinheiro no caixa da Multi.

Reportagem EXAME: https://exame.com/invest/mercados/casas-bahia-deve-bilhoes-a-zurich-bradesco-e-samsung-veja-quem-sao-os-maiores-credores/

Ri Multilaser: https://ri.multilaser.com.br/?gad_source=1

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"Fundador e Diretor Editorial do portal Plotos.com e do respectivo canal de análises. Profissional certificado CEA® (Certificação ANBIMA de Especialistas em Investimento) , possui pós-graduação em Ciência de Dados aplicada ao Mercado Financeiro, somando mais de 15 anos de sólida trajetória no setor de capitais. Especialista na intersecção entre modelos quantitativos e análise fundamentalista, dedica-se a traduzir a complexidade dos dados em inteligência estratégica para investidores. Sua atuação é pautada pelo rigor técnico e pela transparência, fornecendo uma visão profunda sobre a dinâmica dos ativos listados na B3 e as tendências do cenário macroeconômico global."
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