ANIM3 despenca cerca de 30% após recompra da FMU: mercado reage com força e analistas questionam aquisição

Por
JOAO PAULO RIBEIRO CLARA
"Fundador e Diretor Editorial do portal Plotos.com e do respectivo canal de análises. Profissional certificado CEA® (Certificação ANBIMA de Especialistas em Investimento) , possui pós-graduação em...
7 min de leitura

ANIM3 caiu cerca de 30% nesta terça-feira (15), após a Ânima Educação anunciar a recompra da FMU, instituição que havia vendido anos atrás por exigência do Cade. A operação, avaliada em aproximadamente R$ 560 milhões considerando a dívida assumida, gerou forte reação negativa entre investidores e analistas, levantando dúvidas sobre a estratégia de alocação de capital da companhia.

A queda colocou a ação entre as maiores baixas da Bolsa de Valores e reacendeu o debate sobre valuation, geração de caixa e criação de valor para os acionistas.

A recompra que surpreendeu o mercado

A história começou em 2021, quando a Ânima Educação concluiu a aquisição da Laureate Brasil por aproximadamente R$ 4,4 bilhões.

Como condição para aprovação da operação, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) determinou a venda de alguns ativos para preservar a concorrência no setor de ensino superior.

Entre eles estava a FMU, tradicional instituição de ensino da cidade de São Paulo.

Na época, a FMU foi vendida por cerca de R$ 500 milhões para um fundo administrado pela Farallon Capital.

Desde então, a situação da instituição mudou significativamente.

A FMU perdeu participação de mercado, enfrentou dificuldades operacionais e entrou em recuperação judicial, cujo plano foi homologado apenas neste ano.

Mesmo diante desse cenário, a Ânima anunciou sua recompra.

A operação envolve aproximadamente R$ 410 milhões pela aquisição das cotas, além da assunção de cerca de R$ 150 milhões em dívida líquida, totalizando um valor de firma próximo de R$ 560 milhões.

Por que ANIM3 caiu tanto?

A principal preocupação dos investidores não foi apenas a recompra em si.

O mercado passou a questionar o preço pago pelo ativo.

Segundo estimativas de analistas, a operação representa um múltiplo próximo de 10,5 vezes EV/EBITDA da FMU.

Ao mesmo tempo, a própria Ânima negociava na Bolsa por aproximadamente 3,3 vezes EV/EBITDA antes do anúncio.

Na prática, muitos investidores interpretaram que a companhia utilizou um ativo negociado a múltiplos baixos para comprar outro ativo avaliado a múltiplos significativamente superiores.

Essa percepção gerou forte pressão vendedora nas ações.

A tese de desalavancagem foi colocada em dúvida

Outro fator que preocupou o mercado foi o impacto da aquisição sobre o nível de endividamento da empresa.

Nos últimos trimestres, uma das principais teses de investimento em ANIM3 era justamente a melhora na geração de caixa e a redução da alavancagem financeira.

A relação entre dívida líquida e EBITDA havia recuado para aproximadamente 2,39 vezes.

Com a aquisição da FMU, analistas estimam que esse indicador poderá subir para cerca de 2,73 vezes, interrompendo temporariamente o processo de desalavancagem.

Em um ambiente de juros elevados, esse aumento na dívida tende a elevar também as despesas financeiras da companhia.

Bancos revisam recomendações

Após o anúncio, diversas instituições financeiras revisaram suas avaliações sobre ANIM3.

O BTG Pactual rebaixou sua recomendação para neutra e reduziu o preço-alvo das ações.

Outros bancos, como Citi e Bradesco BBI, também destacaram preocupações relacionadas ao preço pago pela FMU, aos desafios de integração e ao fato de a instituição ter passado recentemente por recuperação judicial.

A reação do mercado foi imediata.

Com a forte queda das ações, centenas de milhões de reais em valor de mercado foram eliminados em apenas um pregão.

Existe um lado positivo?

Apesar da reação negativa, a administração da Ânima acredita que a operação possui potencial de geração de valor no longo prazo.

A FMU continua sendo uma das marcas mais conhecidas do ensino superior brasileiro.

A instituição possui nota máxima no MEC, aproximadamente 51 mil alunos e uma presença relevante no mercado paulista.

Segundo a companhia, a integração ao ecossistema da Ânima poderá gerar sinergias operacionais, aumento de eficiência e expansão das margens.

Caso essas projeções se concretizem, o múltiplo pago pela aquisição poderá parecer significativamente menor no futuro.

Entretanto, isso dependerá diretamente da capacidade de execução da empresa.

ANIM3 continua barata?

Mesmo após a forte volatilidade, alguns indicadores fundamentalistas continuam chamando atenção dos investidores.

Segundo dados mais recentes do mercado:

  • P/VP: 0,49
  • P/L: 8,63
  • EV/EBITDA: aproximadamente 3,23
  • ROIC: 14,2%
  • Dividend Yield: 2,7%

Esses múltiplos sugerem que a empresa negocia abaixo do seu patrimônio líquido e com valuation considerado descontado por parte do mercado.

Por outro lado, especialistas lembram que uma ação aparentemente barata nem sempre representa uma oportunidade de investimento.

A criação de valor dependerá da capacidade da empresa de integrar a FMU, aumentar sua rentabilidade e continuar reduzindo seu nível de endividamento.

O que esperar daqui para frente?

A recompra da FMU transformou ANIM3 em uma das ações mais acompanhadas da Bolsa brasileira.

Os próximos balanços financeiros serão determinantes para mostrar se a aquisição representará um acerto estratégico ou um erro de alocação de capital.

Até lá, investidores deverão acompanhar de perto indicadores como geração de caixa, evolução da dívida, captura de sinergias e desempenho operacional da FMU dentro da estrutura da Ânima Educação.

Ri Anima: https://ri.animaeducacao.com.br/

Este material tem caráter exclusivamente informativo e não constitui uma oferta, solicitação ou recomendação de compra ou venda de quaisquer instrumentos financeiros. Investimentos em renda variável, especialmente operações de curto prazo, envolvem risco significativo e podem resultar na perda total do capital investido. Rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura. As decisões de investimento são de inteira responsabilidade do cliente. Os analistas e a instituição se eximem de qualquer responsabilidade por perdas, diretas ou indiretas, decorrentes da utilização deste material.

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"Fundador e Diretor Editorial do portal Plotos.com e do respectivo canal de análises. Profissional certificado CEA® (Certificação ANBIMA de Especialistas em Investimento) , possui pós-graduação em Ciência de Dados aplicada ao Mercado Financeiro, somando mais de 15 anos de sólida trajetória no setor de capitais. Especialista na intersecção entre modelos quantitativos e análise fundamentalista, dedica-se a traduzir a complexidade dos dados em inteligência estratégica para investidores. Sua atuação é pautada pelo rigor técnico e pela transparência, fornecendo uma visão profunda sobre a dinâmica dos ativos listados na B3 e as tendências do cenário macroeconômico global."
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