ANIM3 caiu cerca de 30% nesta terça-feira (15), após a Ânima Educação anunciar a recompra da FMU, instituição que havia vendido anos atrás por exigência do Cade. A operação, avaliada em aproximadamente R$ 560 milhões considerando a dívida assumida, gerou forte reação negativa entre investidores e analistas, levantando dúvidas sobre a estratégia de alocação de capital da companhia.
A queda colocou a ação entre as maiores baixas da Bolsa de Valores e reacendeu o debate sobre valuation, geração de caixa e criação de valor para os acionistas.
A recompra que surpreendeu o mercado
A história começou em 2021, quando a Ânima Educação concluiu a aquisição da Laureate Brasil por aproximadamente R$ 4,4 bilhões.
Como condição para aprovação da operação, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) determinou a venda de alguns ativos para preservar a concorrência no setor de ensino superior.
Entre eles estava a FMU, tradicional instituição de ensino da cidade de São Paulo.
Na época, a FMU foi vendida por cerca de R$ 500 milhões para um fundo administrado pela Farallon Capital.
Desde então, a situação da instituição mudou significativamente.
A FMU perdeu participação de mercado, enfrentou dificuldades operacionais e entrou em recuperação judicial, cujo plano foi homologado apenas neste ano.
Mesmo diante desse cenário, a Ânima anunciou sua recompra.
A operação envolve aproximadamente R$ 410 milhões pela aquisição das cotas, além da assunção de cerca de R$ 150 milhões em dívida líquida, totalizando um valor de firma próximo de R$ 560 milhões.
Por que ANIM3 caiu tanto?
A principal preocupação dos investidores não foi apenas a recompra em si.
O mercado passou a questionar o preço pago pelo ativo.
Segundo estimativas de analistas, a operação representa um múltiplo próximo de 10,5 vezes EV/EBITDA da FMU.
Ao mesmo tempo, a própria Ânima negociava na Bolsa por aproximadamente 3,3 vezes EV/EBITDA antes do anúncio.
Na prática, muitos investidores interpretaram que a companhia utilizou um ativo negociado a múltiplos baixos para comprar outro ativo avaliado a múltiplos significativamente superiores.
Essa percepção gerou forte pressão vendedora nas ações.
A tese de desalavancagem foi colocada em dúvida
Outro fator que preocupou o mercado foi o impacto da aquisição sobre o nível de endividamento da empresa.
Nos últimos trimestres, uma das principais teses de investimento em ANIM3 era justamente a melhora na geração de caixa e a redução da alavancagem financeira.
A relação entre dívida líquida e EBITDA havia recuado para aproximadamente 2,39 vezes.
Com a aquisição da FMU, analistas estimam que esse indicador poderá subir para cerca de 2,73 vezes, interrompendo temporariamente o processo de desalavancagem.
Em um ambiente de juros elevados, esse aumento na dívida tende a elevar também as despesas financeiras da companhia.
Bancos revisam recomendações
Após o anúncio, diversas instituições financeiras revisaram suas avaliações sobre ANIM3.
O BTG Pactual rebaixou sua recomendação para neutra e reduziu o preço-alvo das ações.
Outros bancos, como Citi e Bradesco BBI, também destacaram preocupações relacionadas ao preço pago pela FMU, aos desafios de integração e ao fato de a instituição ter passado recentemente por recuperação judicial.
A reação do mercado foi imediata.
Com a forte queda das ações, centenas de milhões de reais em valor de mercado foram eliminados em apenas um pregão.
Existe um lado positivo?
Apesar da reação negativa, a administração da Ânima acredita que a operação possui potencial de geração de valor no longo prazo.
A FMU continua sendo uma das marcas mais conhecidas do ensino superior brasileiro.
A instituição possui nota máxima no MEC, aproximadamente 51 mil alunos e uma presença relevante no mercado paulista.
Segundo a companhia, a integração ao ecossistema da Ânima poderá gerar sinergias operacionais, aumento de eficiência e expansão das margens.
Caso essas projeções se concretizem, o múltiplo pago pela aquisição poderá parecer significativamente menor no futuro.
Entretanto, isso dependerá diretamente da capacidade de execução da empresa.
ANIM3 continua barata?
Mesmo após a forte volatilidade, alguns indicadores fundamentalistas continuam chamando atenção dos investidores.
Segundo dados mais recentes do mercado:
- P/VP: 0,49
- P/L: 8,63
- EV/EBITDA: aproximadamente 3,23
- ROIC: 14,2%
- Dividend Yield: 2,7%
Esses múltiplos sugerem que a empresa negocia abaixo do seu patrimônio líquido e com valuation considerado descontado por parte do mercado.
Por outro lado, especialistas lembram que uma ação aparentemente barata nem sempre representa uma oportunidade de investimento.
A criação de valor dependerá da capacidade da empresa de integrar a FMU, aumentar sua rentabilidade e continuar reduzindo seu nível de endividamento.
O que esperar daqui para frente?
A recompra da FMU transformou ANIM3 em uma das ações mais acompanhadas da Bolsa brasileira.
Os próximos balanços financeiros serão determinantes para mostrar se a aquisição representará um acerto estratégico ou um erro de alocação de capital.
Até lá, investidores deverão acompanhar de perto indicadores como geração de caixa, evolução da dívida, captura de sinergias e desempenho operacional da FMU dentro da estrutura da Ânima Educação.
Ri Anima: https://ri.animaeducacao.com.br/
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