Braskem entra com recuperação extrajudicial para reestruturar US$ 10,9 bilhões: o que acontece com BRKM3, BRKM5 e BRKM6?

Por
JOAO PAULO RIBEIRO CLARA
"Fundador e Diretor Editorial do portal Plotos.com e do respectivo canal de análises. Profissional certificado CEA® (Certificação ANBIMA de Especialistas em Investimento) , possui pós-graduação em...
29 min de leitura

A Braskem (BRKM3, BRKM5 e BRKM6) entrou nesta segunda-feira, 24 de agosto de 2026, com pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar aproximadamente US$ 10,9 bilhões em obrigações financeiras. Entenda a dívida da companhia, o papel dos credores, a situação de Braskem Idesa, o impacto de Alagoas, a relação com a Selic e os principais riscos para os acionistas.

Conteúdo

A Braskem confirmou nesta segunda-feira uma das decisões financeiras mais importantes de sua história.

O Conselho de Administração aprovou o ajuizamento do pedido de recuperação extrajudicial da companhia e de determinadas controladas, com o objetivo de criar um ambiente jurídico para negociar aproximadamente US$ 10,9 bilhões em créditos sujeitos à reestruturação.

Na conversão aproximada utilizada nas notícias desta segunda-feira, o valor corresponde a algo próximo de R$ 54 bilhões a R$ 56 bilhões, dependendo da taxa de câmbio considerada.

O movimento não significa que a Braskem tenha encerrado suas operações.

Pelo contrário: a empresa continua produzindo, vendendo e atendendo seus clientes. O próprio fato relevante deixa claro que a recuperação extrajudicial tem escopo estritamente financeiro e não abrange as obrigações com fornecedores, clientes e outros stakeholders, que permanecem vigentes segundo os respectivos contratos.

O que está em discussão é a estrutura financeira da companhia.

E essa diferença é fundamental para entender o caso.


O que aconteceu com a Braskem?

A Braskem vinha negociando com seus credores uma alternativa para reorganizar sua estrutura de capital.

Em junho de 2026, a companhia e algumas controladas recorreram à Justiça para obter proteção contra determinadas medidas de execução enquanto negociavam com os credores. A Justiça de São Paulo concedeu tutela cautelar com suspensão de execuções e bloqueios por 60 dias para os credores abrangidos pela mediação.

A situação chegou a um ponto ainda mais delicado em agosto.

A Fitch Ratings rebaixou a Braskem para RD — Restricted Default, classificação associada a uma situação de inadimplência restrita, depois que determinados pagamentos de juros não foram regularizados dentro do período aplicável.

Com o prazo da proteção anterior chegando ao fim, a companhia avançou para uma recuperação extrajudicial.

A medida busca evitar uma corrida desordenada de credores e criar um processo estruturado para negociar a dívida.


A Braskem está quebrada?

Essa é provavelmente a pergunta mais pesquisada pelos investidores depois do anúncio.

A resposta precisa ser mais cuidadosa do que simplesmente “sim” ou “não”.

A Braskem não parou de operar.

A companhia continua com uma operação industrial relevante e apresentou uma melhora expressiva de resultados no segundo trimestre de 2026.

Mas sua estrutura financeira está sob forte estresse.

No segundo trimestre de 2026, a Braskem registrou:

  • EBITDA consolidado de US$ 1,043 bilhão;
  • Aproximadamente R$ 5,253 bilhões de EBITDA;
  • lucro líquido de US$ 664 milhões, equivalente a aproximadamente R$ 3,3 bilhões;
  • Dívida bruta corporativa de US$ 10,4 bilhões;
  • Dívida líquida ajustada de aproximadamente US$ 9,5 bilhões;
  • Alavancagem corporativa de 6,74 vezes dívida líquida/EBITDA.

Portanto, existe uma aparente contradição:

Como uma empresa que acabou de gerar mais de US$ 1 bilhão de EBITDA em um trimestre precisa reestruturar sua dívida?

A resposta está no caráter cíclico da indústria petroquímica e na diferença entre lucro, EBITDA e geração de caixa.


Braskem teve lucro de R$ 3,3 bilhões no 2T26

O resultado do segundo trimestre chamou atenção.

A companhia saiu de um prejuízo no segundo trimestre de 2025 para um lucro líquido de aproximadamente US$ 664 milhões, ou cerca de R$ 3,3 bilhões.

A receita líquida alcançou aproximadamente US$ 4,30 bilhões, segundo os dados divulgados sobre o trimestre.

O EBITDA consolidado chegou a US$ 1,043 bilhão.

Mas existe um detalhe extremamente importante.

A própria Braskem informou que o desempenho foi impulsionado por uma elevação pontual dos spreads químicos e petroquímicos no mercado internacional, relacionada principalmente à restrição de oferta de matérias-primas durante o conflito no Oriente Médio.

Ou seja: não é seguro simplesmente pegar o EBITDA de US$ 1,043 bilhão e assumir que esse será o resultado normal da companhia em todos os próximos trimestres.

Esse ponto é fundamental.


O problema da Braskem é a dívida

Em 30 de junho de 2026, a Braskem tinha US$ 10,4 bilhões de dívida bruta corporativa e US$ 9,5 bilhões de dívida líquida ajustada.

A dívida líquida ajustada havia aumentado aproximadamente 3% em relação ao trimestre anterior.

A alavancagem corporativa chegou a 6,74 vezes.

Isso significa que, mesmo com a melhora operacional do segundo trimestre, o problema financeiro continuava.

E é justamente por isso que o pedido de recuperação extrajudicial se tornou necessário.


EBITDA não é caixa

Esse é um conceito que todo investidor precisa entender.

Uma empresa pode apresentar:

EBITDA elevado e, mesmo assim, ter dificuldades financeiras.

Isso ocorre porque, depois do EBITDA, existem várias outras necessidades:

  • capital de giro;
  • impostos;
  • investimentos;
  • juros;
  • amortizações;
  • variações de estoques;
  • contingências;
  • obrigações financeiras.

No segundo trimestre de 2026, a Braskem teve consumo líquido de caixa de aproximadamente US$ 15 milhões, principalmente devido à variação negativa do capital de giro e ao aumento dos estoques em meio à volatilidade das matérias-primas.

Portanto, o investidor não pode olhar apenas para o lucro líquido ou para o EBITDA.

A pergunta correta é:

Quanto dinheiro a Braskem consegue efetivamente gerar depois de financiar sua operação e seus investimentos?

E depois:

Quanto desse dinheiro sobra para pagar a dívida?


Por que a Braskem chegou à recuperação extrajudicial?

A companhia enfrenta uma combinação de problemas.

1. Endividamento elevado

A dívida é grande em relação à capacidade de geração de caixa em um ciclo normal.

2. Indústria petroquímica cíclica

A rentabilidade depende dos spreads entre o preço dos produtos petroquímicos e o custo das matérias-primas.

3. Mercado internacional pressionado

A petroquímica global enfrentou excesso de capacidade e margens comprimidas.

4. Problemas relacionados a Alagoas

O evento geológico em Maceió provocou custos, indenizações, provisões e processos que passaram a fazer parte da equação financeira da companhia.

5. Braskem Idesa

A operação mexicana também passou por uma profunda reestruturação.

6. Crédito mais caro

A combinação de juros elevados e deterioração do risco de crédito aumentou a dificuldade de refinanciamento.

7. Perda de acesso normal ao mercado

Depois dos problemas de liquidez e do rebaixamento das classificações de crédito, simplesmente emitir nova dívida para pagar dívida antiga tornou-se muito mais difícil.

Essa combinação levou a empresa para uma negociação muito mais complexa com os credores.


O que são os US$ 10,9 bilhões da recuperação extrajudicial?

É importante não confundir os números.

O fato relevante fala em aproximadamente:

US$ 10,9 bilhões em créditos sujeitos à recuperação extrajudicial.

Isso não é necessariamente igual à dívida líquida da empresa.

A dívida líquida ajustada corporativa apresentada no 2T26 era de aproximadamente US$ 9,5 bilhões.

Já a recuperação envolve obrigações financeiras quirografárias sujeitas à reestruturação, incluindo diferentes instrumentos e credores.

Por isso, números como US$ 9,5 bilhões, US$ 10,4 bilhões e US$ 10,9 bilhões podem aparecer simultaneamente sem necessariamente representarem contradição.

São métricas diferentes.


Quem são os credores da Braskem?

Esse será um dos pontos mais importantes da recuperação extrajudicial.

Segundo informações divulgadas nesta segunda-feira, os bondholders internacionais representam aproximadamente 65,3% da dívida envolvida, enquanto bancos e agências representam aproximadamente 26,8%. Há ainda grupos menores envolvendo debêntures, CRA e instrumentos híbridos subordinados.

Isso é importante porque a votação de uma recuperação extrajudicial não funciona simplesmente pelo número de pessoas.

O valor financeiro dos créditos importa.

Assim, um credor com uma exposição de bilhões de dólares possui um peso muito maior na negociação do que um investidor com uma exposição pequena.


O que precisa acontecer para a recuperação extrajudicial ser aprovada?

A legislação brasileira permite que uma empresa negocie um plano de recuperação extrajudicial com seus credores.

O artigo 163 da Lei 11.101/2005 estabelece que o plano que pretende obrigar todos os credores abrangidos de determinada espécie precisa ser assinado por credores que representem mais da metade dos créditos de cada espécie abrangida pelo plano.

Esse detalhe será decisivo na Braskem.

A companhia precisará obter adesão suficiente dos grupos relevantes.

Reportagens desta segunda-feira indicam que a empresa tem uma janela de aproximadamente 90 dias de proteção judicial para avançar nas negociações e formalizar a reestruturação.


O que acontece com a dívida da Braskem?

Ainda não existe um plano final que permita afirmar exatamente quanto cada credor receberá.

Mas existem algumas alternativas possíveis.

Alongamento da dívida

A Braskem pode tentar aumentar os prazos de vencimento.

Isso reduz a pressão imediata sobre o caixa.

Redução dos juros

Uma renegociação pode diminuir o custo financeiro.

Período de carência

A companhia pode conseguir alguns anos antes de começar determinados pagamentos.

Venda de ativos

A empresa pode vender ativos para levantar recursos e reduzir o endividamento.

Aporte de capital

Controladores ou novos investidores podem aportar dinheiro.

Conversão de dívida em ações

Essa é uma das alternativas que mais preocupa os atuais acionistas.

Nesse caso, credores podem receber ações da companhia em troca de parte de seus créditos.

Isso reduz a dívida, mas aumenta o número de ações.


O maior risco para BRKM3, BRKM5 e BRKM6: diluição

Esse talvez seja o ponto mais importante para o pequeno investidor.

Imagine que uma empresa tenha 100 ações.

Você possui uma.

Sua participação é de 1%.

Agora imagine que os credores recebam 900 novas ações como parte da reestruturação.

Passamos a ter 1.000 ações.

Você continua com uma ação.

Mas sua participação caiu de:

1% para 0,1%.

Isso é diluição.

Por isso, não basta perguntar:

“A Braskem vai sobreviver?”

O investidor precisa perguntar:

“Como será a Braskem depois da reestruturação e qual será a participação do acionista atual?”


A Braskem pode sobreviver e a ação não se recuperar?

Sim.

Essa é uma das maiores diferenças entre uma empresa e suas ações.

Uma recuperação extrajudicial pode ser extremamente positiva para a continuidade da empresa.

A companhia pode:

  • reduzir sua dívida;
  • alongar vencimentos;
  • diminuir juros;
  • melhorar o fluxo de caixa;
  • voltar a investir;
  • aumentar o EBITDA.

Mas os acionistas atuais podem sofrer diluição.

Portanto: salvar a empresa não significa necessariamente preservar o valor do acionista.


BRKM3, BRKM5 e BRKM6: quais são os códigos da Braskem?

A Braskem possui três classes de ações negociadas na B3.

CódigoTipoDescrição
BRKM3ONAção ordinária
BRKM5PNAAção preferencial classe A
BRKM6PNBAção preferencial classe B

A B3 identifica BRKM3, BRKM5 e BRKM6 como os códigos de negociação da Braskem.

A companhia também possui ativos negociados no exterior.

MercadoCódigo
B3BRKM3
B3BRKM5
B3BRKM6
NYSEBAK
LatibexXBRK

Segundo o RI da Braskem, os ADSs representativos das ações preferenciais classe A são negociados na NYSE sob o código BAK, enquanto as ações preferenciais classe A são negociadas na Latibex sob o código XBRK.

Na B3, BRKM5 é a principal ação da companhia em termos de negociação e também aparece como o nome de pregão da empresa nos dados da B3.


O que acontece com BRKM5?

A BRKM5 é a ação preferencial classe A da Braskem.

É também o código que concentra a maior liquidez entre as ações da companhia na B3.

Por isso, quando o mercado noticia:

“A Braskem caiu X%”

Normalmente a referência é BRKM5.

Mas o problema financeiro da companhia não está restrito a BRKM5.

A recuperação extrajudicial afeta a estrutura da companhia e, consequentemente, a tese econômica de todas as classes de ações.


E BRKM3?

BRKM3 representa as ações ordinárias da Braskem.

As ações ordinárias possuem direito de voto e estão diretamente relacionadas à estrutura de controle da companhia.

Em uma reestruturação de dívida, a composição acionária e o controle podem se tornar ainda mais importantes.

Se credores receberem ações, por exemplo, a estrutura de controle poderá sofrer alterações.


E BRKM6?

BRKM6 representa as ações preferenciais classe B.

Existe inclusive uma característica específica importante: segundo o RI da Braskem, as ações preferenciais classe B podem ser convertidas em ações preferenciais classe A na proporção de duas BRKM6 para uma BRKM5, observadas as regras aplicáveis.

Portanto, BRKM6 também faz parte da estrutura acionária que será afetada economicamente pela eventual reestruturação.


Os bonds da Braskem

A Braskem possui diversos títulos de dívida internacionais.

Entre os bonds destacados pela companhia estão:

BondPrincipal em circulaçãoCupomVencimento
Braskem 2028US$ 1,25 bi4,50% a.a.Janeiro/2028
Braskem 2030US$ 1,50 bi4,50% a.a.Janeiro/2030
Braskem 2031US$ 850 mi8,50% a.a.Janeiro/2031
Braskem 2033US$ 1,00 bi7,25% a.a.Fevereiro/2033
Braskem 2034US$ 850 mi8,00% a.a.Outubro/2034

Os dados são apresentados pelo próprio RI da Braskem.

Isso ajuda a explicar por que os bondholders internacionais têm tanta relevância nas negociações.

Eles representam uma parcela enorme do capital financeiro da empresa.


O problema de Alagoas

Não é possível analisar a Braskem em 2026 sem mencionar o caso de Maceió.

A exploração de sal-gema na região esteve associada ao evento geológico que provocou subsidência do solo em áreas da capital alagoana, levando a deslocamentos de moradores, interdições e um enorme passivo financeiro, social, ambiental e jurídico.

A companhia realizou pagamentos e constituiu provisões ao longo dos anos.

Mas o problema continua sendo relevante porque ainda existem disputas, processos e potenciais consequências jurídicas e financeiras.

Portanto, o investidor precisa considerar o risco de novas obrigações.

Isso não significa afirmar que toda nova estimativa divulgada na imprensa será automaticamente uma dívida da Braskem.

É preciso distinguir: estimativa de prejuízo, pedido de indenização, decisão judicial, obrigação reconhecida e provisão contábil.

São coisas diferentes.


Braskem Idesa: outro problema financeiro

A situação da Braskem também envolve sua operação no México.

A Braskem Idesa, joint venture entre a Braskem e o grupo mexicano Idesa, entrou com pedido de Chapter 11 nos Estados Unidos para reorganizar sua estrutura financeira.

A operação pretende reduzir a dívida sênior de aproximadamente US$ 2,5 bilhões para US$ 1,6 bilhão, uma redução superior a US$ 920 milhões.

Como parte da reestruturação, a Braskem deverá investir aproximadamente US$ 476 milhões e manter o controle majoritário da operação reorganizada. A expectativa divulgada é de conclusão do processo em aproximadamente 60 a 90 dias.

Isso é importante porque mostra que a pressão financeira não está limitada à operação brasileira.


A relação entre Braskem e Selic

Existe uma conexão importante entre a recuperação da Braskem e o ciclo de juros brasileiro.

O Banco Central iniciou o processo de redução da Selic em 2026.

A taxa estava em 15% ao ano no início do ciclo e foi reduzida para:

  • 14,75%;
  • 14,50%;
  • 14,25%;
  • e, em agosto de 2026, para 14,00% ao ano.

O histórico oficial do Banco Central registra essas decisões.

Na reunião de agosto, o Copom reduziu a Selic para 14% e destacou que o cenário continua exigindo cautela, com inflação ainda acima do desejado e expectativas para 2026 e 2027 acima da meta.


Juros menores resolvem o problema da Braskem?

Não necessariamente.

Essa é uma das conclusões mais importantes.

A queda da Selic pode:

  • diminuir o custo de capital;
  • melhorar o ambiente de crédito;
  • facilitar novas emissões;
  • estimular investimentos;
  • reduzir o custo financeiro de determinadas empresas.

Mas ela não apaga uma dívida existente.

Uma empresa que já está em inadimplência precisa renegociar.

Uma empresa que perdeu acesso ao mercado precisa recuperar a confiança.

E uma empresa com dívida muito superior à sua capacidade sustentável de geração de caixa pode precisar de uma reestruturação.

Por isso, a queda da Selic é positiva para o ambiente econômico, mas não resolve automaticamente o problema da Braskem.


A onda de recuperações de empresas no Brasil

O caso Braskem também acontece em um cenário mais amplo.

O número de recuperações judiciais e extrajudiciais aumentou significativamente nos últimos anos, em meio à combinação de juros elevados, crédito mais restrito, custos maiores e desaceleração de determinados setores.

Dados recentes apontam crescimento expressivo dos pedidos de recuperação judicial entre 2023 e 2026.

O fenômeno não significa necessariamente que todas as empresas sejam inviáveis.

Existem dois problemas diferentes:

Crise de liquidez

A empresa possui uma operação viável, mas não consegue administrar os pagamentos no curto prazo.

Insolvência

A geração de caixa e o patrimônio econômico não são suficientes para suportar a estrutura de dívida.

Uma recuperação pode resolver o primeiro problema.

Mas não consegue, sozinha, transformar um negócio estruturalmente ruim em um negócio saudável.


O caso Casas Bahia mostra a diferença

Outro exemplo recente é o Grupo Casas Bahia.

A empresa entrou em recuperação judicial para renegociar aproximadamente R$ 17,3 bilhões em dívidas, envolvendo cerca de 28 mil credores.

A maior parte da dívida, aproximadamente R$ 16,4 bilhões, é quirografária.

Esse caso mostra como uma empresa pode continuar tendo lojas, clientes, funcionários e operação e, ainda assim, precisar reorganizar completamente suas obrigações financeiras.

A recuperação, portanto, não deve ser interpretada automaticamente como “fim da empresa”.

Ela é um mecanismo para tentar reorganizar a estrutura financeira e permitir a continuidade do negócio.


O que pode acontecer com a Braskem daqui para frente?

Existem vários cenários.

Cenário 1: alongamento da dívida

Seria um cenário relativamente favorável aos acionistas.

A empresa conseguiria:

  • mais prazo;
  • menor pressão de caixa;
  • eventualmente juros menores;
  • continuidade operacional.

Nesse caso, a recuperação poderia funcionar como uma grande reestruturação financeira sem destruição significativa do equity.


Cenário 2: alongamento + venda de ativos

A companhia poderia vender ativos e usar os recursos para reduzir a dívida.

O problema é que vender ativos em uma situação de pressão financeira pode significar aceitar preços menos favoráveis.


Cenário 3: aporte de capital

Controladores ou novos investidores podem aportar dinheiro.

Esse cenário fortalece o balanço, mas pode exigir uma emissão de novas ações.


Cenário 4: conversão de dívida em ações

Esse é um dos cenários que mais merece atenção dos acionistas.

Parte dos credores poderia receber ações.

A dívida cairia.

Mas a quantidade de ações aumentaria.

Isso poderia provocar uma diluição relevante dos atuais acionistas.


Cenário 5: reestruturação agressiva

Em um cenário mais negativo, poderia ocorrer uma combinação de:

  • haircut da dívida;
  • venda de ativos;
  • aumento de capital;
  • conversão de dívida;
  • mudança de controle;
  • diluição dos acionistas.

Nesse cenário, a empresa poderia continuar existindo e operando, mas o valor econômico destinado aos atuais acionistas poderia ser muito menor.


Qual é o maior risco para o investidor?

Não é necessariamente a falência.

É a destruição de valor do equity.

Essa diferença é fundamental.

Imagine que uma empresa tenha R$ 50 bilhões em dívidas e que os credores aceitem reduzir significativamente esse valor.

A empresa pode sair da recuperação com uma dívida muito menor.

Isso é ótimo para a empresa.

Mas, se em troca os credores receberem grande participação acionária, os antigos acionistas podem ficar com uma parcela muito pequena do negócio.

Portanto: uma reestruturação pode ser excelente para o negócio e ruim para o acionista.


E se o setor petroquímico melhorar?

Esse é o principal elemento que pode mudar a história.

Se os spreads petroquímicos se recuperarem estruturalmente, a Braskem pode gerar muito mais caixa.

Isso aumentaria sua capacidade de:

  • pagar juros;
  • amortizar dívida;
  • investir;
  • recuperar credibilidade;
  • reduzir alavancagem.

O segundo trimestre de 2026 mostrou exatamente o poder dessa dinâmica.

A companhia registrou EBITDA de US$ 1,043 bilhão, mas alertou que a melhora dos spreads foi influenciada por fatores específicos do ambiente internacional.

O mercado, portanto, precisa descobrir se essa melhora é: cíclica e temporária ou estrutural e sustentável.


O que o investidor deve acompanhar agora?

A partir de agora, estes são os indicadores mais importantes para acompanhar Braskem:

1. Plano de recuperação extrajudicial

Quais serão as condições?

2. Haircut

Haverá redução do principal da dívida?

3. Juros

Os credores aceitarão reduzir o custo?

4. Prazo

Quanto tempo será concedido?

5. Carência

Quando começarão os pagamentos?

6. Garantias

Quais ativos serão dados aos credores?

7. Aumento de capital

Haverá nova emissão de ações?

8. Debt-to-equity

Parte da dívida será convertida em ações?

9. Participação dos controladores

Haverá novo aporte?

10. Petrobras

Qual será o papel da Petrobras na nova estrutura?

11. Braskem Idesa

Quanto a operação mexicana exigirá de capital?

12. Alagoas

Novas provisões ou decisões judiciais poderão surgir?

13. EBITDA

O resultado operacional continuará elevado?

14. Fluxo de caixa

O EBITDA está realmente se transformando em caixa?

15. Alavancagem

A dívida líquida começará finalmente a cair?


A Braskem está barata?

Essa é uma pergunta que não pode ser respondida apenas olhando para o preço da ação.

Em situações normais, o investidor poderia utilizar:

  • P/L;
  • EV/EBITDA;
  • P/VPA;
  • fluxo de caixa descontado;
  • dividend yield.

Mas em uma reestruturação financeira, a estrutura de capital precisa vir primeiro.

O investidor deve perguntar:

Quanto vale a empresa?

Depois:

Quanto vale a dívida?

Depois:

Quanto sobra para o acionista?

Essa última pergunta é o chamado valor residual do equity.


BRKM3, BRKM5 e BRKM6 podem subir mesmo com a recuperação?

Sim.

Uma ação em processo de recuperação pode subir fortemente caso o mercado enxergue uma solução melhor do que o cenário anteriormente precificado.

Por exemplo:

  • Credores aceitam alongar a dívida;
  • Não ocorre grande diluição;
  • O setor petroquímico melhora;
  • O EBITDA aumenta;
  • a dívida líquida começa a cair;
  • Alagoas deixa de gerar novas surpresas;
  • Braskem Idesa é reorganizada;
  • Novos controladores fortalecem a companhia.

Nesse cenário, a percepção de risco pode mudar rapidamente.

Por outro lado, se houver:

  • grande haircut;
  • enorme aumento de capital;
  • conversão maciça de dívida;
  • piora dos spreads;
  • novas contingências;
  • necessidade de novos aportes;

O equity pode continuar pressionado.


Conclusão: o que realmente está em jogo na Braskem?

A recuperação extrajudicial da Braskem é muito mais do que uma notícia sobre uma empresa endividada.

É uma disputa sobre a distribuição de valor entre:

  • acionistas;
  • bondholders;
  • bancos;
  • outros credores;
  • controladores;
  • e a própria companhia.

A Braskem ainda possui uma operação industrial relevante.

No segundo trimestre, mostrou que pode gerar EBITDA muito elevado quando o ciclo petroquímico ajuda.

Mas a dívida é grande.

A alavancagem é elevada.

O histórico recente de liquidez é preocupante.

A empresa enfrentou problemas relacionados a Alagoas.

A Braskem Idesa também está sendo reestruturada.

E a companhia chegou ao ponto de buscar proteção jurídica para reorganizar aproximadamente US$ 10,9 bilhões em obrigações financeiras.

Por isso, a pergunta mais importante não é:

“A Braskem vai quebrar?”

A pergunta correta é:

“Qual será a estrutura da Braskem depois da recuperação extrajudicial?”

E, para quem possui BRKM3, BRKM5 ou BRKM6, existe uma pergunta ainda mais importante:

“Quanto da Braskem continuará pertencendo ao acionista atual depois que os credores forem pagos ou receberem participação na companhia?”

Esse será o grande divisor de águas.

Se a empresa conseguir alongar a dívida, reduzir o custo financeiro, recuperar geração de caixa e evitar uma diluição excessiva, o atual processo poderá representar uma virada.

Se, por outro lado, a solução exigir uma transferência muito grande de valor para os credores, os acionistas poderão sofrer mesmo com a sobrevivência da empresa.

A Braskem, portanto, entra agora em uma nova fase.

A fase da reestruturação.

E os próximos meses serão decisivos para descobrir se estamos diante de uma empresa que está apenas reorganizando sua dívida…

ou de uma mudança profunda na própria estrutura de propriedade da companhia.

Braskem – Relações com Investidores

Este conteúdo tem caráter informativo e não constitui recomendação de compra ou venda de BRKM3, BRKM5, BRKM6, BAK ou qualquer outro valor mobiliário.

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"Fundador e Diretor Editorial do portal Plotos.com e do respectivo canal de análises. Profissional certificado CEA® (Certificação ANBIMA de Especialistas em Investimento) , possui pós-graduação em Ciência de Dados aplicada ao Mercado Financeiro, somando mais de 15 anos de sólida trajetória no setor de capitais. Especialista na intersecção entre modelos quantitativos e análise fundamentalista, dedica-se a traduzir a complexidade dos dados em inteligência estratégica para investidores. Sua atuação é pautada pelo rigor técnico e pela transparência, fornecendo uma visão profunda sobre a dinâmica dos ativos listados na B3 e as tendências do cenário macroeconômico global."
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